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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

do eterno - a nu



Cecilia e António, Alentejo, 1974



Peguei numa fotografia dos meus pais.

Uma fotografia que sempre me fez lembrar a tela Cócegas do Malhoa...
talvez por isso tenha sido uma das minhas primeiras aventuras a óleo.

"Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços..."
Florbela Espanca

cópia de Cócegas de José Malhoa,
2004, óleo s/tela, 50x40cm

Olho a fotografia e sou esmagada pela manifestação de que nada é eterno. Reconcilio-me com a dor dessa evidência.

sexta-feira, 11 de maio de 2007



s/título- série excertos,
2006, óleo e colagem s/tela, 30x40cm

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

excerto de Tabacaria, Álvaro de Campos

quinta-feira, 15 de março de 2007

Estilhaços

estilhaços - série excertos,
2006, óleo e colagem s/tela, 30x30cm

"há quatrocentos dias,
ou mais.
há demasiado tempo que me és de menos.
alguns dias muito bons podiam ser melhores por falta de ti.
outros dias poderiam ser diferentes do nada que são.
diz-me que para sempre não é tudo,
diz que para nós é para ti, que há um nós em ti".

Texto de Paulo Jorge Calado Ribeiro

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007



s/título- série excertos,
2006, óleo s/tela, 55x65cm


Morrer lá à frente

Sentado literalmente em cima do tempo, observo.
(todos aqueles que o tentam controlar)


Parar, retardar, avançar.
Construir tempo, é coisa que os deuses temem.

O homem...

Passei dias, semanas, meses, nessa posição.
O tempo contou, em cima do tempo.

À herege tentativa de mudar o imutável,
este, como que numa demonstração de superioridade,
Muda.
Todos aqueles que o tentam mudar.


O homem...

O ser que muda cursos de água e os relevos da terra.
Morre a tentar vencer o tempo.

Carlos Veríssimo, TrajectóriaS, 2003



quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Além Tejo

Além Tejo,
2006, óleo s/ tela, 30x41 cm

TEORIA DO SUL

Folheia-se o caderno e eis o sul. E
o sul é a palavra. E a
palavra des-
do-
bra-
-se
no espaço com suas letras de
solstício e de solfejo. Além
de ti. Além do Tejo.

Verás o rio. E talvez
o azul. Não
o de Mallarmé: soma de branco
e de vazio.
Mas aquela grande linha onde o abstracto
começa lentamente a ser o
sul.

Manuel Alegre

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

s/título- série excertos,
2006, óleo e cola s/tela, 35x45cm

"The Weeping Song"

Go son, go down to the water
And see the women weeping there
Then go up into the mountains
The men, they are weeping too
Father, why are all the women weeping?
They are weeping for their men
Then why are all the men there weeping?
They are weeping back at them
This is a weeping song
A song in which to weep
While all the men and women sleep
This is a weeping song
But I won't be weeping long
Father, why are all the children weeping?
They are merely crying son
O, are they merely crying, father?
Yes, true weeping is yet to come
This is a weeping song
A song in which to weep
While all the men and women sleep
This is a weeping song
But I won't be weeping long
O father tell me, are you weeping?
Your face seems wet to touch
O then I'm so sorry, father
I never thought I hurt you so much
This is a weeping song
A song in which to weep
While we rock ourselves to sleep
This is a weeping song
But I won't be weeping long
But I won't be weeping long
But I won't be weeping long
But I won't be weeping long
Nick Cave

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

cuidado, desvelo...


solicitude,
2006, óleo s/ tela, 60x120 cm

Ora cuidar me assegura,
ora me matam cuidados.

Foi ser a vontade minha
de todos tão desviada
que me não afirmo em nada,
pois tenho o mal que tinha.
O bem que tinha me enfada.
Isto é força da ventura
- se não me engana o que cuido -
que tais extremos mistura
que ora o meu próprio descuido,
ora cuidar me assegura.

Diversas cousas me pede
o meu desejo inquieto:
umas nego, outras prometo;
mas contudo me sucede
perder-me no que cometo.
Como será dos meus fados
a tenção favorecida,
se para males dobrados
dão-me ora cuidados vida,
ora me matam cuidados?
Luís Vaz de Camões